Muita gente parou para conferir o que havia ali, mas a maioria nem reparou na pilha de livros erguida no meio da calçada. Alguns transeuntes quase esbarraram na pequena estante, apresentada pela frase “pegue, leia, viaje e doe”, escrita em um papelão, mas seguiam adiante sem olhar parar trás. Outras se aproximaram, pegaram um livro, mas não levaram para casa por acharem que se tratava de alguma “pegadinha”. Rafael acredita que, apesar de a ação não ser algo comum, a reação das pessoas aponta para uma certa descrença na boa intenção alheia.
– Eu fiquei de longe, a uns dez metros da estante. Quando alguém hesitava em levar o livro, eu chegava perto para encorajar e explicar porque estava fazendo aquilo. Quando o pedestre escolhia um exemplar, a única coisa que eu fazia era pedir para tirar uma foto e desejar boa leitura. Teve um homem que, mesmo assim, não quis pegar um livro – conta o jornalista.
A estudante de engenharia de produção Katiane Alcântara, de 28 anos, mal acreditou no que viu.
– Isso é coisa de Deus. Eu procurando emprego, estudando pra concurso e esses livros sendo dados no meio da rua. Eu não teria condições para comprá-los agora... É uma benção mesmo – disse a moradora de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
Em outra dessas aproximações, Rafael foi surpreendido por um pedido de autógrafo. Uma senhora decidiu levar para casa uma antologia poética na qual o jovem havia publicado um de seus textos. Ao saber disso, a moça não pensou duas vezes e pediu uma dedicatória para ela e o marido ao aspirante a escritor.
Essa não foi a primeira vez que o casal doa seus livros. Recentemente, eles deram alguns de seus exemplares para uma biblioteca comunitária no Complexo do Alemão.
– Acreditamos que este é o tipo de coisa que merece estar nas mãos das pessoas, e não na estante de casa, pegando poeira. Tínhamos livros guardados até debaixo da cama... Com a viagem, essa "filosofia" passou a fazer ainda mais sentido – explica Amanda.
A doméstica Maria Cruz, de 52 anos, não tem do que reclamar. Pelo contrário. Moradora de Duque de Caxias, ela levou dois exemplares. Maria diz gostar muito de ler, mas não compra livros com frequência porque, segundo ela, são muito caros.
– Estou levando um pra mim e outro para minha filha, que também ama ler. Quem dera se todos os dias alguém fizesse algo assim.
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